— dias de chuva —

Almoço

Nao sei quem é a senhora. A cara não me é estranha.

É avó, envelhece alegremente, sem fingimentos, sem lamentos.

A mãe aborrece-se mas ensina a Júlia o que dizer quando lhe disserem “o q foi?”. “Uma vaca pariu um boi”.

Comem a pizza e arranjam-lhe o cabelo louro. Quanto mais nova, mais encaracolada.

A mãe veste a camisola de treino do marido e a toalha da avó.

Lá fora, a primavera assalta-me os olhos e o vento quase sufoca a arvore, que como a menina que vê profiteroles pela primeira vez, é amparada por uma estaca que, mesmo cansada e com vontade de ceder, a segura como se fosse o trabalho mais importante do mundo.

No ar, alguém canta a “time after time” da Cyndi Lauper, como se tivesse perdido a esperança de voltar aos ano 80.

Enquanto isso o Gil anda á volta da mesa, como se tivesse vontade de viver tudo ao mesmo tempo. Agora.

Acabo a pizza e queimo os lábios com o gelo.

O empregado, atento, resgata o prato.

É novo cá, acho q nunca o vi.

Lembro-me da empregada, rotunda e sorridente, que parece ter comido todas as pizzas e me quer conhecer.

A outra, mais envergonhada mas igualmente preocupada e atenciosa, pequenina e magrinha, de olhar atento e peito esperto, lembra-se de se ter enganado uma vez e pede-me desculpa. Não faz mal. Até lhe acho graça.

Levanto-me e pago.

Mais um dia.