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  <title>Dias de Chuva</title>
  <subtitle>Um lugar pequeno e pausado na internet.</subtitle>
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  <updated>2026-08-03T00:00:00Z</updated>
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    <title>Almoço</title>
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    <updated>2026-08-03T00:00:00Z</updated>
    <content type="html"><![CDATA[<p>Nao sei quem é a senhora. A cara não me é estranha.</p>

<p>É avó, envelhece alegremente, sem fingimentos, sem lamentos.</p>

<p>A mãe aborrece-se mas ensina a Júlia o que dizer quando lhe disserem “o q foi?”. “Uma vaca pariu um boi”.</p>

<p>Comem a pizza e arranjam-lhe o cabelo louro. Quanto mais nova, mais encaracolada.</p>

<p>A mãe veste a camisola de treino do marido e a toalha da avó.</p>

<p>Lá fora, a primavera assalta-me os olhos e o vento quase sufoca a arvore, que como a menina que vê profiteroles pela primeira vez, é amparada por uma estaca que, mesmo cansada e com vontade de ceder, a segura como se fosse o trabalho mais importante do mundo.</p>

<p>No ar, alguém canta a “time after time” da Cyndi Lauper, como se tivesse perdido a esperança de voltar aos ano 80.</p>

<p>Enquanto isso o Gil anda á volta da mesa, como se tivesse vontade de viver tudo ao mesmo tempo. Agora.</p>

<p>Acabo a pizza e queimo os lábios com o gelo.</p>

<p>O empregado, atento, resgata o prato.</p>

<p>É novo cá, acho q nunca o vi.</p>

<p>Lembro-me da empregada, rotunda e sorridente, que parece ter comido todas as pizzas e me quer conhecer.</p>

<p>A outra, mais envergonhada mas igualmente preocupada e atenciosa, pequenina e magrinha, de olhar atento e peito esperto, lembra-se de se ter enganado uma vez e pede-me desculpa. Não faz mal. Até lhe acho graça.</p>

<p>Levanto-me e pago.</p>

<p>Mais um dia.</p>]]></content>
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    <title>Cama</title>
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    <updated>2026-06-30T00:00:00Z</updated>
    <content type="html"><![CDATA[<p>Voltei a uma cama onde não dormia há 10 anos. Onde fui feliz há mais do que isso.
As tragédias, por vezes, fazem-nos voltar ao que éramos. A descobrir que ainda somos.
Está igual. Fria e solitária. Instável e silenciosa.
O tempo passou e nada aconteceu, nada mudou.
A cama que hoje é desconfortável e não serve para nada, serve para o que há. Sempre foi.</p>

<p>E aqui estou, entre paredes rachadas e ideias abandonadas.
Ás vezes deixa-se o que se deseja pelo que se tem. Ás vezes não. Ás vezes inventam-se razões. Ás vezes mente-se. Ás vezes não.</p>

<p>A memória esfuma-se, engana, queremos já o que demorou, desiludimo-nos com o expectável.
Na dúvida, fugimos.</p>]]></content>
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    <title>Publicar</title>
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    <updated>1983-03-06T00:00:00Z</updated>
    <content type="html"><![CDATA[<p>Publicar.<br>
Dizem que eu devia publicar.<br>
São duas da manhã.<br>
Não sei o que escrever.<br>
Não tenho nada para dizer, nada a assinalar, nada a acrescentar.<br>
Não fiz nada, não há o que apresentar ou invejar.<br>
Não li nada. Palavras, poucas sei.
Como escrever? Porquê?</p>

<p>Publicar.<br>
Falar sobre quem, lá fora, corre e queima pneus para chegar a horas a lado nenhum?<br>
Sobre as conversas vizinhas sobre temas alheios com terceiras pessoas que dali cuscam quartos?<br>
Sobre o entrecosto grelhado a que cheira o ar?<br>
Sobre o cão vadio que educadamente se passeia e observa sem incomodar?<br>
Tudo isto é banal. Não há, nesta vida, nada a assinalar.<br>
Publicar. O quê? Para quê?</p>

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